segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Nossas raízes brigando por espaço


Imagine que o carnaval, seu aniversário ou até mesmo o réveillon inesperadamente tivesse hora para começar, para terminar e espaço (físico) delimitado para acontecer. São basicamente estas as condições que a prefeitura de Maceió propõe para que os representantes de matriz africana e todos as pessoas que acompanham os festejos de Iemanjá [Nossa Senhora da Conceição] adotem no próximo sábado (8). A festa é tradicionalmente, repito TRADICIONALMENTE, realizada todos os anos na orla da cidade por seguidores de religiões afrodescendentes.
Festa bonita. Expressão latente das raízes brasileiras. A praia fica colorida com flores, muita música, uma energia boa e muita alegria  para homenagear um orixá que já virou um signo dentro da cultura nacional.
As condições, ou melhor, limitações, gerou grande discussão dentro das redes sociais. No Facebook, um grupo organizou um ato hoje no Fórum da Justiça. O protesto pacífico obrigou que os representantes dos grupos entrassem com um mandado de segurança contra a prefeitura para ter o DIREITO de realizar a festa. Nas redes, a discussão deve continuar até sábado.
É. A prefeitura esquiva-se afirmando que precisa 'organizar' a festa. Claro, organizar os ambulantes que vão ganhar um troco, colocar meia dúzia de banheiros químicos e colocar alguém lá para 'apagar a luz' e mandar os convidados embora da festa (dos outros).
Nesta mesma terra de manifestações culturais politicamente corretas, mais especificamente no ano do centenário de uma verdadeira barbárie, a quebra de Xangô, o fato ganha tom bem semelhante. Em 1912, pais e mães de santo foram espancados e tiveram seus terreiros destruídos pela intolerância.
Felizmente, hoje as redes sociais e o acesso à informação livre colocaram o dedinho novamente na ferida e mostraram que diferente de 1912, há um espaço livre que incentiva manifestações culturais e repudia atos discriminatórios e intolerantes. É a internet que está se mostrando uma ferramenta importante na luta contra a opressão.
Ainda é absurdo pensar em um país que alcançou sua independência há mais de 150 anos, cresceu graças aos negros, mas que numa era tão informatizada possua tanto preconceito e limites.
A guerra pelo espaço foi parar na Justiça, transcende a concessão do meio geográfico para a realização de uma festa popular.
Milton Santos também era negro e entedia de espaços e suas metamorfoses como poucos. Falava que o espaço pode ser entendido como dinâmicas dirigidas pela sociedade, já que o espaço é uma instância social.  Neste mesmo espaço ditam-se regras para viver socialmente. Ele continua a ter razão. É mais do que urgente ter mudanças não só locais, mas mundiais para tratar deste espaço, obter mais flexibilidade e acima de tudo: respeito!

** A foto que ilustra o post eu pesquei do TNH1

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